15 de junho de 2009

Jardins com História


Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exactos
Basta para podermos
Achar a vida leve

De todo o esforço seguremos quedas
As mãos brincando, pra que nos não tome
Do pulso, e nos arraste.
E vivamos assim.

Buscando o mínimo de dor ou gozo,
Bebendo a goles os instantes frescos,
Translúcidos como água
Em taças detalhadas.

Da vida pálida levando apenas
As rosas breves, os sorrisos vagos,
E as rápidas carícias
Dos instantes volúveis.

Pouco tão pouco pensará nos braços
Como que exilados das supremas luzes,
Escolhemos do que fomos
O melhor para lembrar.

Ricardo Reis, in Odes



(…) Há em Portugal de Norte a Sul, jardins que vão desde os peristilos romanos de Conímbriga e claustros medievais até aos parques públicos do século XX. Cada época tem muito bons representantes, cujos traços comuns contribuem para esboçar a essência do jardim português. A maioria destes jardins são privados, desconhecidos do público, tem carácter pouco grandioso, jogando mais com os ambientes, o conforto, a escala humana e as vistas para o exterior. No entanto têm em comum um efeito tranquilo de refúgio, tanto mais valioso quanto mais confuso e carregado é o modo de vida que levamos no inicio deste segundo milénio. Os Jardins portugueses são parte da nossa cultura. Encontram-se atrás dos muros, espaços escondidos silenciosos, deixados crescer sem grandes trabalhos e só sujeitos à amenidade do clima que abençoa este país. Reflectem a essência de uma cultura reservada, mantêm uma escala humana que não lhes retira beleza nem calma. (…)


(…) A definição de jardim complica-se quando a tentamos distinguir do conceito de paisagem, pois ambos partem dos mesmos termos de base: área a céu aberto onde cresce a vegetação, por onde circula a água, o vento e os animais, e sobre o qual o homem dedica o seu trabalho. Os conceitos divergem um pouco quando ao primeiro se associa uma intenção estética e um significado artístico, e ao segundo uma função utilitária e de produção. Mas também há jardins de grande beleza que produzem fruta, hortaliças, flores de corte, que podem juntar no mesmo espaço o ornamento e a produção. Assim, a função utilitária não distingue o jardim da paisagem. (…)

Este excerto pertence a um livro, Jardins com História, elaborado por cinco mulheres – Cristina Castel-Branco, Teresa Chambel, Sofia Raimundo, Iole Sala, Rita Salgado e Ana Luísa Soares -, licenciadas pelo Instituto Superior de Agronomia (ISA) no curso de Arquitectura Paisagista. O seu trabalho foi publicado pela Editora Medialivros. É sobre os trinta e dois jardins portugueses lá referidos que irei falar e mostrar nos próximos artigos.

10 comentários:

  1. Amada esta passarela no lago, muito bonita, "Escolhemos do que fomos
    O melhor para lembrar."
    A paz

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  2. Concordo com o pastor...essa passarela é show de bola

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  3. Saudações!
    Amiga Luísa,
    Que Post Fascinante!
    Linda poesia...
    Desde que o homem ouve falar do jardim do Éden, aos jardins suspensos da Babilónia, têm procurado fazer réplicas em seus espaços em homenagem ao mundo fantástico da natureza, são expressões traçadas pelo espirito, fotografias da alma, por isso temos tanta diversidade de belos Jardins, e, você soube como poucos fazer o registro paisagistico dos importantes jardins ao redor do mundo.
    Parébens pelo post!
    Abraços,
    LISON.

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  4. Engraçado, a primeira fotografia é do jardim botánico da Madeira.

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  5. Phrenytz,

    Sabia que a foto era de um jardim da Madeira, mas não fazia ideia que era do Jardim Botânico. Retirei-a de um blog que só fazia referencia ao facto de se tratar de um jardim madeirense. Obrigada pela informação complementar.

    Abraços

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  6. Não posso imaginar jardins maravilhosos que não contem histórias, mesmo que sejam de amor!

    Lindas imagens e texto.

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  7. Pastor, Alex, Lison, Sissym,

    Muito obrigada pelos vossos comentários e visita. :)

    Abraços e voltem sempre!

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  8. Não deve ser (não é!!!) fácil recriar a natureza, aspectos, harmonia. Os Jardins são lindíssimos. Intrigantes até. Mesmo com a mão humana evidenciada na composição, transmite aquela paz, aquela energia campestre que só pode ser natural.

    Talvez a humanidade ainda tenha jeito mesmo (acredito nisso). Se pode compor algo assim... pode tudo. Inclusive, se remodelar.

    Abraços
    (PS Esse Fernando Pessoa é um caso sério. Atendendo pelo nome que for, sempre genial)

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  9. Bonito poema completando a beleza dos jardins.

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  10. oi luiza
    belissimo poema muito lindo
    mesmo e o jardins tambem.
    lindo o local.

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